"A PAZ NÃO DÁ IBOPE"
(Por Luiz Galdino)
"Saí de casa às 17h num domingo meio sem graça. Entrei naquele trem totalmente esquecido pelo governo estadual, quase vazio com destino à Barra Funda e me pus a mirar insistentemente as ‘percatas’ (era assim que nós chamávamos alparcatas lá em casa). Pensava no momento incrível pelo qual passamos, todos nós.
Quando desci naquela estação para fazer a baldeação com destino à Praça da Sé fiquei espantado com a multidão que vi. Realmente essa cidade nunca pára, pensei. Dia das mães, o Papa arrastando quase 500mil pessoas para a basílica de Aparecida do Norte (hoje estão dizendo que foi um terço disso) e ainda assim aquele alvoroço no centro.
Quando cheguei ao meu destino fiquei contente, pois havia bem mais pessoas do que as mil, no máximo, que eu esperava. Afinal, além de tudo que estava ocorrendo nesse domingo e de termos tido uma festa como essa uma semana antes que redundou em todo aquele sensacionalismo, nem foi possível anunciar direito essa ‘Revirada’.
Fiquei ainda mais satisfeito ao perceber que a grande maioria dos que eu via vestia camisetas do TM, e que muitos levavam bexigas brancas em sinal de apoio à paz. Fui para o camarim e começou o show da atração de destaque da noite. Digo isso quando levo em conta o fato de ter sido aquela banda a única a fazer a sua apresentação com toda liberdade de tempo. O que, em certa medida, levou todos os outros grupos a se sentirem feitos de "patos" e aumentou ainda mais aquele "pequeno" atraso.
Tudo bem.
De repente, comecei a ouvir as vozes em coro de uma multidão que exigia nossa entrada no palco. Nessa hora uma jornalista me perguntou sobre a semana passada: “vocês trouxeram 40mil pessoas...”. Eu disse que na verdade foram 40mil e 3. E que agora estavam lá fora 49mil e 3, mas o 4 estava chegando. Fui delicadamente irônico. Afinal, essas estatísticas de público são sempre polêmicas. O certo é que quando saí pra dar uma olhadela na galera fiquei abismado com como, em alguns minutos, havia aumentado o número de gente. Depois, no show, tentei contar um por um da massa, mas não deu tempo de terminar a contagem. Show pequeno é assim mesmo. 
Parei em 15mil pessoas. O pessoal do jornal parou bem antes de mim. Tem nada, não. Dessa vez não ouvi a ordem expressa de “saiam da área do camarim que o super astro está chegando”.Pelo contrário, tivemos um contato carinhoso com nossos mestres: Moraes Moreira, Armandinho e Leci Brandão. Esses sim: histórias vivas da MPB.
Quando pisamos no palpo acabou o cansaço; terminou a expectativa. Era tudo perfeito: estávamos celebrando a paz, o respeito mútuo e a cultura desse país. Vocês estavam todos lá. Mesmo aqueles que não puderam ir. Era a verdadeira política. A comunhão entre os desiguais que sabem aceitar suas diferenças.
Mais que aceitar: VALORIZAR.
Nem um caso de violência. Ok, paz não dá muito ibope. Mas, você sabe, a gente nunca comeu esse tal de ibope. Já paz: QUE DELÍCIA. De fato foi um ato de desagravo à Virada Cultura (que se inscreva de vez na tradição da cidade). Mas foi também um ato de desagravo à música livre, à arte independente, ao circo, ao teatro, à poesia. Um ato de desagravo à periferia, ao hip hop, aos negros e aos pobres. Quanto à mídia: não buscamos holofotes. O que buscamos está nos olhos de todos vocês: um brilho que se some aos nossos olhinhos úmidos.
Não suplicamos a atenção de quem não quer ou, no mínimo, não se importa com a cultura desse país, desse povo, dessa nação. Pedimos, isso sim, o engajamento de cada um nessa luta que pode mudar nossas vidas de “dentro pra fora, de fora pra dentro”. ARTE. Ainda assim, continuamos insistindo pelo nosso direito aos espaços:
INTERESSE DO PÚBLICO TAMBÉM É INTERESSE PÚBLICO.
Dessa vez a TV Cultura estava lá: VIVA A TV CULTURA. Ela registrou o que ocorreu naquela noite inesquecível. Viu nossa emoção ao percebermos que os nossos mestres estavam ali no palco nos assistindo. Viu que eles nos incentivavam com seus olhares e abraços calorosos. Registrou uma Leci Brandão tomada de uma energia pura, bradando para nós, os encantados, suas convicções políticas e humanas bem claras e coerentes. Nos encorajando ao afirmar: HOJE ME SINTO ORGULHOSA DE ESTAR AQUI. FIQUEI SABENDO QUE OS INTEGRANTES DO TEATRO MÁGICO SÃO MEUS FÃS. ORGULHO-ME DISSO. A Rede Tv também deu seu apoio fundamental. Deu vez à nossa voz. Ao nosso pensamento. O que aconteceu nesse curto espaço de uma semana certamente dará um grande ânimo à música que quer pensar, que quer provocar, que quer fazer pensar. Ao circo que quer inovar-se, que quer ser respeitado, que quer encantar. Ao teatro que quer chegar ao povo. À cultura, independente das interferências idiotas e presunçosas da indústria que transforma tudo em lata de conserva. A Matrix está morta. Vamos construir tudo novo! Vamos contar a nossa história.
Todos nós!
Mas não nos iludamos, ainda somos pequenos e frágeis.
Carecemos uns dos outros. Que cada um de nós que quer uma “nova consciência e juventude” seja o patrimônio do outro. Vamos nos preservar das setas malignas que podem ser lançadas contra nosso peito exposto. Vamos fortificar nossa vidraça dos tijolos tiranos que podem vir. A cara é pra bater: a alma seja resguardada! É um orgulho, um prazer perceber que tantas pessoas buscavam o mesmo que nós buscamos: Brincar de pensar. Nunca esqueceremos. NUNCA.
VAMOS QUE TEM CHÃO... Agora me conte, voce tambem foi?"
Um texto que me deixa sem argumentos tem livre acesso à Mulher da Pizza.
Mulher da Pizza, a mais nova fã de O Teatro Mágico.
Ps: A propósito, eu fui. E fui nos dois.