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24.10.08
Marmita
Começou meio que do nada, e não posso dizer que já não era hora. Nem que eu não queria. O grande lance sempre foi aquela tal da amizade, uma palavra que eu acho tão tosquinha e que às vezes só atrapalha na relação, mas que no nosso caso, sempre serviu de base pra qualquer coisa... Qualquer desculpa pra telefonar, ligar, aparecer ou pular de dentro da caixa. Era básico, simples... Cada um seguia com a sua vida, fazendo o que bem entendesse, o que desse na telha, ninguém devia nada a ninguém.
Tudo estava muito sossegado, então começamos a dar uns pegas esporádicos. Pra matar o tédio... Ponto pro sexo, intimidade, ponto pros despudorados. Um pouco ali, um pouco aqui. Nem muito nem pouco. Aquela medida pra sobrevivência, saca?, Pra não mexer com os retardados dos sentimentos. Esses, sim, são as verdadeiras drogas pesadas, só problema e dependência... E a coisa seguia, meses e meses e meses. Eu o chamava de minha marmita, pra quando batesse aquelas fominha. Meu hot pocket.
Uns dias atrás... O chamei, sem motivo, pra me acompanhar num aniversário de uma amiga comigo. E a surpresa maior de todas foi que ele foi. Não levei a sério. Como disse, somos amigos há tanto tempo... Tanta história entre a gente. Tanta abobrinha. Como ele diz: tanta groselha. Comecei então a reparar que as saídas viraram meio que coisinhas de casal, que eu sempre vejo por aí... Tipos aquelas coisas que só uma namorada fez, sair no domingo pra ir numa loja de esportes na marginal. Fiquei na minha, fingindo que tava tudo certo. E o mundo foi girando nessa ladainha, quando ele me chama pra sair com ele e os amigos numa sexta-feira. Mudou toda uma concepção. Os amigos eram legais, não conhecia ninguém, fiquei quieta com o meu copo de cerveja semi cheio noventa por cento do tempo, senti um tédio... Mas aí é que entra o ponto central. Eu poderia estar em qualquer lugar. Num buraco com o Osama, na caverna do dragão... Ele tava lá. Então eu tava bem.
Outro dia ele me diz que ta apaixonadinho, inho. Não me surpreendi nada, nada, quando vi que eu também tava. Eu parei de mentir pra mim, de me boicotar... São coisas que a gente vai aprendendo durante a caminhada. Tipo, to ficando velha, broto!
Ai a vida tava nessa de vai num vai... Ele então me chama pra dar uma agitada com ele numa festa da MTV. Show de lançamento do novo cd do Aliados, que ele neeeem gosta, e que eu conheço todas as músicas, ouço quase todo dia, tenho todos os CDs, já tirei foto com o vocalista e já dei gritinhos histéricos por uma baqueta. Então fomos, eu me sentindo uma amiga dos famosos, já me visualizando sentada no sofá dando um selinho na Hebe... Sem ter do que reclamar da festa, não tocou sequer uma música eletrônica, que eu odeio mais que jiló, era open bar e pra dar o toque final serviam comida mexicana. Quando a banca começou a tocar, ele ficou do meu lado, segurando a minha mão, morrendo de tédio e segurando o bocejo, enquanto eu pulava ensandecida, suada, neurótica, e cantava a plenos pulmões. E nas músicas que eu não sabia, as novas, eu ficava aos beijos com ele. Fim de show, fim de guaca-mole... Sentamos num sofá e ficamos abraçados conversando. Eu devo ter feito uma boa ação muito grande nos últimos dias, pra receber do mundo um momento tão fantástico. Daqueles que a gente já não pensa mais em nada... Que só quer ficar ali falando de coisas como "vamos casar, nossa filha vai jogar futebol e tocar sax, e nossa jukebox vai ficar na mesma sala da mesa de sinuca". E ouvindo ele me falar o quanto me ama. E sentindo que deve ter algo maior que o amor, porque, pra mim, essa já ficou pra trás.
E então ele me avisa que ta gostando de mim, que não tem outra igual, que quer me ver hoje e amanha, e depois de novo. E eu que já sofria pra dizer não, hoje só aceito o que tem que ser. Eu queria entender - e ao mesmo tempo, não - o que ta acontecendo comigo e com o meu ex, aquele bem antigo, motivo pelo qual eu comecei esse blog.
Dito e feito por Mulher da Pizza. 12:12
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