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Um anjo de vestido. Uma libido do cacete.


"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..." Clarice Lispector

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    Kibe Loco



    23.7.07

    Em outras entregas...

    Acho que a merda toda começou quando ela me ligou, no dia 22 de maio daquele ano. Lá pelas 11h da manha. Estava trabalhando quando me celular tocou, era um número que começava com 2. Não sabia que era ela. E o quanto ela estava nervosa, só fui saber bem depois, junto com a quantidade de vezes que ela ensaiou aquele reinício. Mais vezes que suas mãos podem contar.
    - Você ainda reconhece a minha vóz ou vou ter que me identificar?
    Não sei se fiquei propriamente feliz. Já faziam seis meses que não se havia nem se sabia.
    - Lógico que sim. - respondi. Porque eu realmente conhecia, ela devia estar com medo que eu dissesse não, mas daquela voz de criança eu não me esquecia.
    Aquele dia não era um bom dia. Havia passado a nopite em claro, intercalando dor-de-cotovelo com cevada. Nosso velho amigo: quem-eu-amo-não-me-quer-mais-e-está-me-fazendo-de-troxa. mas não quero falar agora que minha ex-atual-ex-namorada não estava segura de seus sentimentos para com a minha pessoa.
    Papo pra boi dormir...
    Na época trabalhava numa empresa moribunda, com gente que eu não gostava, fazendo o que não gostava seis dias por semana por um salário de fome. E tinha uma bunda muito gorda e acomodada para sair de lá. E como se não bastasse toda essa droga eu tinha a sorte grande de trabalhar com essa minha ex cachorrona que era apaixonado. Com isso o percentual das chances de um esquecimento rápido caiu pela metade do que já era pouco.
    O que eu não sabia ali era que esse meu esquecimento a ritmo de Projeto Itamar não era só por esse motivo, mas vamos em frente.
    "Oi tudo bom? Tudo bem e vice-versa" pedi pra ela ligar depois das 3h da tarde. Na verdade implorei, e que bom, porque foi por isso que ela realmente ligou depois.
    Nunca entendi porque ela se apaixonou por mim. Não havíamos namorado, nem sequer saíamos juntos com os amigos. Pra falar a verdade nem sequer saíamos. E até hoje não consigo vê-la como namorada. Embora eu quisesse ser capaz disso.
    Desliguei o que telefone celular e dei um tava em minha própria testa como os antigos desenhos animados. Meu colega do lado me olhou estranho:
    - Sua ex?
    Fiz que sim com a cabeça.
    - E isso não é bom? Você gosta dela, não gosta?
    - É minha ex! A outra! - Me levantei e fui ao banheiro: caramba! Ela ligou!
    Tempos depois ela me contou que sua atitude foi parecida. Ficou olhando 30 segundos para o telefone. Sua colega da frente a viu e perguntou quem era. "Paçoca" respondeu ela. Sua colega arregalou os olhos e se levantou para beber água. Pra conseguir respirar.
    Seu nome era Catarina e foi ela que eu troquei pela namorada que hoje não me quer mais.
    Embora eu nnca tenha visto Catarina como namorada, era com ela que eu podia ser eu mesmo, do jeito que eu quisessem conversar sobre tudo ou falar uma besteira das grandas. Não porque eu a camia de graça, mas por que ela me passava essa segurança. Podia ser qualquer coisa que ela estaria lá com o seu nariz grande, olhando pra mim e rindo. Entrando no jogo como só ela.
    Talvez a culpada seja ela. O que não faltou foi gente avisando que ela estava sendo feita de otária. Inclusive eu.
    Eu a amava, de um jeito estranho mas amava. E amava mais do que muito gente.
    Contando assim parece que é uma história de filme adolescente americano. Onde Catarina é a boa samaritana que pregava a paz, e eu o rebelde inconsequente. Catarina estava bem longe de ser uma reencarnação da Madre Tereza.
    Graças a Deus.

    Dito e feito por Mulher da Pizza. 12:07