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Um anjo de vestido. Uma libido do cacete.


"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..." Clarice Lispector

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    Kibe Loco



    17.10.07

    Escolhendo o lado do muro.


    Uns meses atrás quando contei uns pedaços ro reinício da história pra uma amiga ela cogitou a idéia de eu ficar em cima do muro, sem saber o que fazer. Não é que hoje eu esteja em cima do muro, o problema em si é que fico cada hora de um lado. Como uma nômade. Sou uma cigana com uma trouxa na minha vara. Não que eu me arrependa. Não. Mas também não é uma coisa que eu me orgulhe. Só sei que gostaria de ter tido mais medo. Minha mãe sempre falava que eu não tinha medo e ia acabar levando um tiro, todas as vezes que reagia a algum assalto. Não levei um tiro, mas ela estava certa. Até os bombeiros sentem medo, dizia ela. Eu nunca quis ser bombeira. Talvez entrar pro exército, mas com a minha estatura, só serviria de moita.

    Hoje acordei pensando naquela segunda-feira chuvosa em que pensei em terminar com o Alexandre. As reclamações que eu tinha na época eram meio que decisivas, mas como nunca fui decidida em nada, não terminei. Sem dúvida alguma. É complicado, você esta numa relação, e esta relação está meio balançada por algum problema e como diria Murphy, aparece do nada aquele Pamonha, que virou – e que ainda, intimamente, vira – sua cabeça.

    Lembro-me que o Alexandre me fazia lembrar umas vinte vezes por dia que eu parecia estar namorando o meu próprio pai. Não que eu esteja falando mal do meu pai. Mas pai é pai. Pai trabalha pra sustentar a família, reformar a casa, pagar a nossa faculdade e nosso curso de inglês. E pai trabalha todo dia, o tempo todo. Alexandre era assim. Tínhamos 18 anos.

    Acho que só começamos a ficar porque calhamos de trabalhar juntos no meu primeiro emprego adulto. E depois de alguns meses nós dois saímos da empresa. Ele para trabalhar numa multinacional cobiçadésima e eu porque fui demitida mesmo. Segundo minha orientadora eu estava “degrais” acima dos outros. Pensando bem, era melhor sair mesmo. Não posso ficar com uma orientadora pedagógica que não sabe falar ‘degrau’ no plural.
    Uma outra coisa que atrapalhava, a distancia entre as nossas casas. De quase duas horas. Era de enfraquecer. Mas éramos dois surpreendentes, e o que não faltou nessa relação foi motivação e força de vontade. O que matava era a saudade.

    Tenho necessidade de convivência. E fins de semana apenas, não me satisfazem. Eu sei! Sou chata, grudenta... Mas quando digo que eu amo, pode olhar nos meus olhos e ver que é verdade e quando eu amo, eu vou até o fim. Hoje já não sei se isso é uma característica muito legal. Gostaria de respeitar meus limites pelo menos de vez em quando.

    Naquela segunda-feira eu pensei como seria minha vida sem ele. Decidi continuar, e tentar resolver. Não cheguei a fazer uma lista de prós e contras, mas foi quase. Escolhi ficar por ele, porque não queria ficar sozinha, não queria agüentar festas de família sozinha, passar noites de sábado sozinha. E se eu tinha alguém que me suportava eu não ia jogar isso fora de novo. Pode chamar de falta de amor próprio, mas mesmo parecendo estar namorando um pai, eu o amava. Na maior parte do tempo.
    Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

    E a maior parte do tempo tornou-se a menor. E a maior parte do tempo tornou-se mais legal que a menor. A menor se tornou pesada. E menor tornou-se incomoda. A menor precisava acabar. Já não era uma questão de querer, e sim de salvação. Para que duas pessoas saíssem inteiras dessa história.

    Chorei. E encerrei uma parte de mim. Embrulhei com carinho e guardei. Estava pesado demais para que seguíssemos adiante. E sem vergonha nenhuma de dizer, estava morrendo de saudade dessa sensação de liberdade. E liberdade é apenas mais uma palavra para definir a situação de quem não tem mais nada a perder.


    Dito e feito por Mulher da Pizza. 01:06