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Um anjo de vestido. Uma libido do cacete.


"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..." Clarice Lispector

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    Kibe Loco



    21.7.08

    O tempo passa, o tempo voa...

    Quando a ressaca de sábado passou e eu vi que a morte não se precipitara, saí parar beber e comemorar sua partida. Chega certa idade que não tem mais como esconder do seu pai que você bebe e tem uma vida social. Fui, então, para uma festa a fantasia com ele e seus amigos que me carregaram no colo.

    Conheci Picanha há mais ou menos onze ou doze anos atrás. Isso que eu me lembre, é possível que tenha sido antes. Era um churrasco na casa dele, sei lá de quem, e eu fui toda poderosa com o meu biquíni laranja
    com babados e lantejoulas, acompanhada de duas amigas e nossas barbies. Ele com sua sunga do Sonic, ou seja lá de quem fosse, garanto que não era lá muito melhor do que o meu visual.

    Passamos à tarde na piscina. Lá pelas cinco da tarde, cansada daquela vida de sereia, decidi que iríamos subir no quarto do Picanha, tomaríamos um banho e colocaria roupas secas pra brincar de pega-pega no quarto escuro (eu sei que a mente de vocês, impuros, estão imaginando uma grande orgia, né?, mas eu juro que com oito anos, pega-pega no quarto escuro era uma brincadeira inocente e divertidíssima). Pois bem, subimos e ao abrir quarto por quarto descobrimos que havia hidromassagem na suíte do casal. Porque não? Nada como um banho relaxante, quentinho. Aconteceu que brincamos de Banheira do Gugu, espalhando a água por todo o banheiro, essa por sua vez escorreu pelos cantos e o teto da sala de estar começou misteriosamente a pingar. Com isso, fomos pegas no flagra pelo pai do Picanha e a comida de rabo que eu ganhei dos meus pais foi absurda.

    Me pergunto até hoje como o pai do Picanha ainda gosta de mim depois dessa.
    Passado esse episódio da piscina, eu e o Picanha continuamos indo às mesmas festas e churrascos, nos encontrando ocasionalmente. E desde que eu me conheço por gente, sempre teve um clima meio carregado no ar, como se algo estivesse pendente. Uma vez meu pai o chamou de genro porque nos encontrou trancados no carro. E eu era bobinha-bobinha, tava ouvindo musica só. O tempo passou, cresci, e arrumei mais coisas pra fazer do que sair todo fim de semana com o meu pai. De modo que de uns tempos pra cá, o pessoal só me lembrava de nome. Fui então à festa a fantasia. Eu e a minha fantasia de pirata. Rumo à guerra.

    A primeira pessoa que vi quando cheguei foi o Picanha e sua fantasia de Cowboy. Ele me deu uma xavecada de leve, fiquei na minha e me limitei a sorrir. Estava num local em que algumas das pessoas chegaram a comparecer no casamento dos meus pais. E meus pais são separados há dezessete anos..!!!

    Créu pra lá, créu pra cá... Picanha acende um cigarro. E como quem não quer nada, expliquei a situação e fomos lá fora para que eu fizesse um Malboro Light Amigo feliz. Conversamos e tal. Um friiiio. Nada além, só os olhares demorados.

    Entrei. E resolvi que ao invés de ir pra festa, iria fazer um xixizinho camarada. Fui, tive quase que despir a fantasia inteira, porque o cinto de moeda era um inferno, quando então sou parada no quintal por um menino. Alto, moreno, nem magro, nem gordo, aparelho (urgh) e uma lata de cerveja na mão. Perguntou-me o que eu tinha no copo.
    - Whisky com guaraná.
    - Você tem namorado?
    - Não – respondi, já pensando numa desculpa.
    - Você ta solteira? – Precisa humilhar?
    - To e to com o meu pai.
    Achei que essa desculpa bastaria. Mas homem é muito burro e demora demais pra saber o que é um fora ou um perdido. Quem é que fala do pai quando ta afim de alguém?
    - Ah, mas ele ta lá embaixo. Nem vai saber. Vamos fazer assim, vamos dividir esse whisky aqui e ficar os dois loucos. – disse ele.
    - Olha, - comecei calma - eu não sei você. Mas nem que eu bebesse um copo inteiro eu ia ficar louca, muito menos com esses dois dedos que tem aí. Agora me devolve que eu vou descer. – ou eu to virando tiazona experiente em matéria de bebida ou esse povo ta nascendo com meio fígado só.
    - Nossa calmaaaaa, caaalmaaa!! Deixa eu dá um gole. Me dá um abraço. – Que Mané abraço, meu amigo?!
    Limitei-me a dar uma batidinha em suas costas pra apressar o gole. Então subitamente me lembrei de algo que poderia me tirar dali. Eu e o meu copo.
    - Quantos anos você tem? – perguntei.
    - Quinze e você? – respondeu ele, contente. Orgulhoso do tipo tenho quinze-anos-e-to-bebendo-cerveja.
    Eu, lógicamente, explodi em gargalhadas.
    - Tenho vinte – aumentei um ano pra causar maior impacto. O que deu certo, pois ele deu um gole no copo e me devolveu. E ainda rindo, desci as escadas, que eram grandes e daquelas que a quina arrebenta suas costelas se você cair, ainda mais eu, uma pata-choca de salto alto.

    Créu pra lá, créu pra cá... Passa o Picanha e me dá aquele aperto na lateral da barriga, que arrepia até a nuca, que se bem dado faz uma mulher ficar entre a vida e a morte... Aí você vira pra ver quem foi, e acontece aquele olhar carregado. Aquele olhar significativo que trocamos desde os treze anos. Contei pra ele da criança que veio dar em cima de mim. E ele disse:
    - Vinte? Você tem dezenove!
    - Foi pra causar impacto, Picanha. Você tem quantos anos?
    - Dezenove.
    - E como você sabia minha idade?
    - Mulher da Pizza, você acha que eu, Picanha, vou esquecer o que sei de você? Eu, Picanha, esquecer da Mulher da Pizza? Jamais.

    Hunm... Nham nham nham..!! Ahhh, então é assim que é?!

    Ah, se eu tivesse bebido sóóó mais um pouquinho pra lascar aquele beijo de tchau que ele tanto pediu... Acho que vou ter que ir a mais alguns eventos com o meu pai. Participar mais do crescimento do meu irmão, união, sabe? Preciso estar mais presente na família.
    Veja você... A gente fica fora uns dois aninhos e as pessoas crescer e quando você se dá conta estão pegáveis e comíveis. Quem diria... Aquele pivetinho de sunga e pé de pato. Com a garotinha de laranja que desde os tempos de cabelos curtos chanel já era chamada de nora.

    Mas agora eu to na minha praia. E disso eu entendo. Vou poder usar minhas frases de efeito, jogar meu cabelo de lado e dar aquela reboladinha, porque eu sei onde to me metendo. E pela reciprocidade do olhar do Picanha, dessa vez, o pega-pega no escuro vai ter alguma coisa a mais. Canta, Pizza, caaaanta!
    Minha taça transborda...*

    PS: Freqüentarei o ETGA (Escritores de Textos Grandes Anônimos). Juro.
    * Ultimas palavras do versículo 5 do salmo 22.

    Dito e feito por Mulher da Pizza. 15:59